domingo, 20 de dezembro de 2009

O Cemitério marinho - decassilabos - Eric Ponty

O Cemitério marinho
(Em decassilabos sem soluções criativas de tradução)

O tranquilo teto firmo passam pombas,
dentre os pinhos palpitam, dentre as tumbas,
justo meio dia mesclado deste fogo,
O mar, o mar do sempre do reinício!
Oh recompensa após o pensamento
do longo olhar resguarda-se dos deuses!

Que do puro trabalho alvo resume,
diamante imperceptível desta escuma,
que só da paz semblante nos conserva!
Quando deste abismo sol repousa,
Obras puras de eterna desta causa,
Que do Tempo cintila, saber sonha!

Do perpetuo tesouro de Minerva,
massa alívio, visível de reserva,
audaz água, guardado céu de mim,
tanto repouso véu é desta flama,
silêncio! Edifício desta alma,
coberta de ouro mil pancadas! Teto!

Tempo do templo, sol suspira sumo,
ponto que me alcanço acostumo,
tudo resguarda olhar meu deste oceano
é o Deus na oferenda tão suprema,
cintilação serena nos semeia,
sua altitude em desdém tão soberano.

Como fruta fundida neste gozo,
numa delicia altera-se sua essência,
numa boca matando com sua forma,
sou fumo deste vero meu tão sumo,
este céu canta alma consumada,
alterando seus cais tão rumorosos.

Belo céu, vero céu guarda mudança,
após tanto orgulho após estranho,
ócio, mais deste pleno do poderio,
Eu abandono brilhante cavidade,
Sobre as mansões dos mortos sombra passa
domando-me este frágil movimento.

Alma exposta das tochas do solstício,
em mim bela sustento-te justiça,
destas suas luzes são armas piedade!
Eu te rendo pureza tão primeva:
Resguarda-me!... Mais junta à luz
Suposta sombra triste meio do sitio.

Sabe falsa cativa da folhagem,
do Golfo comedor dos magros cercos,
são meus olhos cerrados viço oculto,
deste corpo ogro faz da placidez,
da cabeça atirada ossos desta terra,
deste pensar inerte qual ausento.

Discreto sacro pleno prado fogo,
do fragmento terrestre dado à luz,
sitio me dá domínios destas tochas,
misto ouro destas pedras sombrias árvores,
fazendo deste mármore suas sombras;
Deste mar fiel tangendo minhas tumbas!

Oh Cadela esplendida expulsa idólatra!
Quando do solitário do pastor,
Eu perpetuo carneiros misteriosos,
deste branco rebanho minhas calmas,
das distantes prudentes brancas pombas,
destes sonhos altivos, anjos zelos.

Aqui é o futuro do descanso,
deste inseto arranhou da secura,
tudo é bruto ardido ressoa ar,
não sei já da severa desta essência...
A vida vasta livre desta ausência,
É tão doce amargura alma clara!

Mortos ocultos são bem desta terra
que reanimam infértil do mistério.
Meio elevado, meio são movimentos
que nele se reflete e satisfaz…
Crânio findo perfeito do diadema,
Eu sou sua mais secreta mudança.

Não faz que me contenham meus temores!
Remorsos, minhas dúvidas, coações
são defeitos extenso do diamante…
Noite de quaisquer doídos destes mármores,
Um povo vaga as raízes destas árvores
são granjeados da parte lentamente.

Ausentes eles são deste espaço,
A argila rubra a bebe branca espécie,
O dom da vida passou para as flores!
São destes mortos frases familiares,
Arte pessoal, as almas singulares?
A larva se confia transforma às lágrimas.

Destes gritos agudos moça irada,
dos olhos, dentes, pálpebras molhadas
deste seio encantado face em fogo,
do sangue brilhou os lábios se renderam,
dos últimos dons, dedos que acudiram,
Todo sob terra esvai volta ao jogo!

Oh grande alma aguarda do meu sangue
faz aura ser das cores das mentiras
douro olhos carnívoros onda aqui?
Cantaram quando for tão vaporosa?
Vai! Tudo esvai! Minha vista poros,
A santa impaciência morreu aqui!

Magra imortalidade ocre e doirada,
Consoladora medo do laureado,
Que da morte fez seio maternidade,
desta bela mentira calmo engano!
Que nem conhece nem esta recusa,
do crânio vago a alegria tão eterna!

Pais profundos, das testas tão desertas,
destes são este peso tantos passos,
da terra confundiram-se não passam,
Vero roedor, o verme irrefutável
é ponto que dormiu sob esta tábua,
viver da vida ele ata não mais!

Amor, por mim, meu mesmo quiçá ódio?
Deste dente secreto de si próximo
Quais os nomes ele lhe convir!
Que importa! Vê! Quer! Sonha-lhe! Lhe Toca!
Minha carne agrada até da manta
como vivente eu volto pertencer!

Zenão! Oh Zenão Cruel! Zenão d’Eléia!
Que movimento flecha tão alado
Que vibrar, voa, e voeja nem voa mais!
O som infantiliza e a flecha fere!
Ah! O sol… Qual sombra tartaruga
alma Aquiles imóvel grande passo!

Não… Não!… De pé! Eras contínuas!
Parta meu corpo, forma reflexiva!
Bebam meu seio nascente deste vento!
Um frescor, deste mar tão exaltado,
Me torna minha alma. Vigor sal!
Corram onda retornou-se tão viva!

Oh! Grande mar delírios tão doirados,
Pele desta pantera e chambre aberta,
Dos mil dos mil dos ídolos do sol,
Hidra absoluta, livre carne azul,
Que seu remorso é brilhante cauda
são tumulto silêncio parecido.

O vento desvia!… Tentar viver!
O ar imenso abre e forma livro,
O vago pó saltou dos minerais!
O vácuo destas páginas enlevadas!
Quebrem, vagas! Quebrem d’águas júbilos
Do teto pipocar calmo dos focos!

Eric Ponty

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Sem poder, como levam as formigas - trad Eric Ponty

Sem poder, como levam as formigas
o pão de seu pequeno ganha-pão,
levo sobre as veias um bel-prazer
sujeito como pássaro com ligas.

As fatigas divinas, as fatigas
da morte me dão quando eu te vejo
com esse leite audaz em apogeu
e esse alento de campo com espigas.

Solto todas as rendas, minhas veias
quando te vejo amor, e me emociono
como se deve emocionar um morto

Ao cair no jazigo... Sem areias,
rei de meu sangue, ver-te me destrono,
sem as areias, amor, porém deserto.

Trad. Eric Ponty MIGUEL HERNÁNDEZ Obras Escogidas. In: El rayo que no cesa, p. 121, Madrid: Aguilar, 1952.

domingo, 1 de novembro de 2009

Para Pythia - Paul Valéry - Tradução Eric Ponty

Para Pythia

Poema de Paul Valéry
A Pythia exalta-se da flama,
das duras ventas do incenso
arfante, livres gritos! D alma
alarmante dos flancos ruídos!
Pálida profunda mordida,
desta maça tão pendida
ao ponto ficar putrefata
ao olhar lutuoso desta ausência,
viver árduo perfumador
do fumo tecido furor!

Frestas presas, sombras dementes,
donde domam diabo primo,
dentre perfumado tormento
do prodigo fantasma vago,
trançando trança colossal,
a deter-se meio desta sala,
pronunciar louco lento ruído,
mover-nos negros entusiasmos
ódio aos deuses, presos espasmos,
dando-se findo dos futuros!

Estes martírios fontes frias
enlaçados dedos crispados,
vociferando entre às mentiras
vibra estrangulada serpente:
Ah! Maldita! Dos maus padeci!
Toda qualquer casta é golfo!
Alias! Entre abertos espíritos,
perdi-me meu próprio mistério!
Uma inteligência adultera
exerceu o corpo comprimir!

Vá Cruel! Mestra imunda revogue,
corra, corra, oh nobre fermento,
de um falso vácuo tão grosseiro,
fazer puro ventre do amado!
Fazer-se finda cena horrível!
É todo meu corpo arco obsceno
perceber romper desta seta,
como esta prisioneira da infâmia,
implacavelmente ao céu d alma
do meu peito pequeno tem!

Que me fala, à minha paz mesma?
Qual eco respondeu-me: Homens!
Que me ilumina? Que blasfema?
Feitos certos versos escuma,
cacos armados minha língua,
compostos brandir desta arenga,
brisando babar dos cabelos,
mastigadas redes desordem,
dum buque do vento mordido
repreendendo-se às confissões?

Oh Deus! Eu não sei deste crime,
tenha-me à dorida vivencia!
Mas, se me prendeu por vitima,
do culto de um corpo vencido,
dos estranhos monstros matados,
são o monstro e a besta renunciada,
doado colar, ao chefe eleito,
quais crinas tocadas nos templos,
como das pálidas lâmpadas,
acesos mármores noturnos.

Então para esse vagabundo,
morte errante da lua enluarada
d água do mar surpreendida onda,
compelindo aos eternos ápices!
São humanos, feitas estátuas,
geladas fontes, almas mortas,
para o gélido deste meu céu,
premiadas palavras pessoais,
dessas árduas pessoas dos divos,
silente tolice e do orgulho!

Eh!... Disso que se fez víbora,
em toda sua fonte de frissons,
assombrar a carne assustada,
na pluralidade séqüitos!...
Levar-se uma luta insensata,
retornando então pensamento,
para falsa jóia retornada;
oh memória, feita da magia,
que não trazida desta energia,
dos outros arcanos dos cumes!

Meu caro corpo... Forma optada,
para esse viço que não é,
Afrodite desalterada,
Intacta noite ofertou ao cume,
transtornar-se dos indizíveis,
da lama de uma ilha sensível,
doce martírio, minha sorte,
qual aliança de nossas vidas,

Diante dádiva das escumas,
tem-se feito corpo da morte,
do meu ombro, destes meus ardis,
desta fonte da negridão,
que jamais se passam do ardil,
derretidos à mesma doçura!
Erguendo-se à minha narina,
das mãos cheias dos peitos viventes,
dos meus braços, belas torrentes,
meu abismo ébria vastidão
profunda, trazida dos ventos!

Aí! Oh rosas de toda lira,
contidas da transformação!
Noite do meu triste delírio,
semelhante à constelação!
Oh templo mudo da caverna,
ou deste furação dos sonhos,
ou até mesmo do céu fez belo!
É preciso gemer, e alçar,
Já não sei qual êxtase abrange,
deste meu cabelo fragmenta!

Tenha-me conhecido estigma,
parecido ao meu pobre peito:
são como dormidos aromas,
da lã macia como rebanho;
tenha-me por vivo amuleto,
tocada esta garganta toada,
embaixo ornatos viperinos,
tonto, livre, dos empecilhos
possuir-me ou murmurar-nos pneuma
honrados laços soterrados.

Do que me perpetra, condena,
puros, laços ritos odiosos?
Sombra presa à ossada de burro
servida presa à colméia deuses!
Mais uma virgem consagrada,
da concha nova perolada,
de que nem fez à divindade,
foi sacrificada ao silêncio,
desta mais intima violência,
qual foi feita virgindade!

Porque poderosa criadora,
da autora mistério animal,
composta disso desta raiz,
semear maravilhas do mal!
Não são dádivas que me deram,
tão cridas quando brisa às cordas,
sendo como saltos mais belos,
íntegros golpes dados dorso,
qual, não foi prendido à força,
como deste soar de uma tumba!

Dos clementes, destes oráculos,
destas maravilhosas mãos,
dando caricias dos milagres,
presos presentes subumanos!
São em vão seus comunicados
dos frágeis pontos destes únicos,
comoverem-se do esplendor!
D água calma esta transparência,
toda é tempestade mãe
de uma obscura profundidade!

Vá! Á divina iluminação
não pare esse terrível raio,
não advenha da nossa deidade,
como um sonho cruel e claro!
Arriba! Não vai-nos instruir!...
Não!... A solidão vem lembrar,
Nesta brecha imensa do ar,
desalenta pálida lágrima
da arquitetura da ruptura,
compor-nos puros desertos!

Não siga-nos a mãos unânimes,
compor minha fronte revolta,
de algumas das supremas faíscas!
Que sorte siga-lhe em seu exemplo!
Ao passar, futuros irmãos,
para estes seus rostos contrários
de uma punida teta pálida
não se percebeu dela marca
dessa mesma essência deforma,
das ilhas dos belos olvidos.

Negras testemunhas da luz,
não buscamos mais... Clamo olhos!
Oh lágrimas fontes primevas,
tão profundas destes seus céus!
toar-se mais amarga demanda!...
Mas deste aprendiz deste maior
da escuridão qual deva unir!...
Presa nossa raça espantada,
A distância desesperada
deixar-nos tempo de morrer!

Ouça, minha alma ouça-me as flores!
Quais das cavernas feitas daqui?
Então é isso meu sangue? Jovem?
Rumorosas d ondas tão gratas?
Meu oculto soneto são auroras!
Tristes bronzes, tempos sonoros,
de que irão soar-se o futuro!
Do baque, coice, de uma rocha,
diminuir-se hora mais breve...
minhas duas castas irão unir!

Oh formidável altitude,
quebrantados destes degraus,
Tenho rumo da árvore vida
à morte demonstra-nos rastros!
Ao longo deste meu mais gélido
dedo sutil desta fiandeira
em tecer-lhe deste cruel rastro!
Destes soluços sobem crise
até de minha nuca ou brisa
quiçá de um crime prazer!

Ah! Brisa das portas viventes!
Faça-nos rachar vãos vedados
grosso rebanho dos terrores,
das cerdas destas pronuncias!
Emergir-nos destas baias fúnebres
ou destes víveres mais tétricos
das fabulosas quantidades!
Saltos, dos sonhos mais saciados,
Oh Horda espinhosa revolta
chegando queimar douro, Lã!
*
Tal qual ainda mais torturado
delírio, grande dos fragores,
da profetiza provocada
pelos ares douro mais rubro;
Mas enfim o céu se declara!
Sua orelha pontífice hilário
da aventura aos versos futuros:
Uma atenção santa observa,
porque da voz jovem e cândida
partiu destes corpos impuros.
*
Honra dos Homens, Santa Língua,
Discurso profético ornado,
Belas cadeias comprometidas
Do deus desta carne impura,
Clareada generosidade.
Aqui está voz da sabedoria
A soar-nos esta augusta voz!
Quem sabe quando esta soa,
Para Ser a voz mais pessoal
Tanto das ondas e do cedro!
Tradução Eric Ponty

sábado, 24 de outubro de 2009

Poemas - Leonor Mauvecin - trad. Eric Ponty

Não é ela.
É minha mão a que escreve agora
e a música
e o perfume das acácias e do vinho
e as estrelas
e a escritura indelével do arcano gravado sobre pedra.

E estou perdida
entre a página e
Narciso.
E a morte
que joga ao nunca mais.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Poema de Eduardo D´anna - Tradução Eric Ponty

JUSTEÇA AMERICANA

Busco no Centro uma rua esquecida,
com galerias donde não entra nada,
e nela vou vendendo-me e comprando
no meio dos locais vazios.

Transfigurado, metade pó
e metade útil, vejo aos vivos
mortos, e os mortos
vejo esperando o ônibus.

E os ônibus, parados
os vejo, esperando o regresso
de choferes que no outono se foram
e os deixaram ali, entre as folhas.

Não havia tal coisa chamada vida.
Não havia tal coisa chamada morte.
Há injustiças, ventos, aromas,
gente que trata de ser
feliz, que se releva
dentro de um redemoinho
de instantes. Que se sabe
um instante. Depois,

Isso é outro preço.

Eduardo D´anna

domingo, 4 de outubro de 2009

Poema - Nina Reis - Trad. Eric Ponty

AS MULHERES DE ATLÂNTIDA

Distante de seus homens
guardam silêncio
e nada confessam da chuva
sorrirem dos demônios
que esculpem na terra
e com saliva banham seus pés
As mulheres de Atlântida
tecem com filhos de sol em seus palácios de gotas
todo é sombra debaixo d água
os filhos despertam dilúvios
seus cães ladram garoas
Algo que não desconheçam dos corpos são vapores
ante a tormenta seus cabelos se despenteiam
contra todas as coisas
a terra pare sozinha
as mulheres de Atlântida
quando escutam os lamentos
cobiçam a carne
dos que não gemem
depois do aguaceiro

NINA REIS - Trad. Eric Ponty

sábado, 3 de outubro de 2009

Poema Beatriz Bejarano trad. Eric Ponty

Hoje só quero escrever
e escrever sem parar
e converter-me em letra

Fazer-me um alfabeto,
bailar com a prosa

amar o verso
banhar-me de vocais
untar-me consonantes

Fazer orações
frases sem sentido
letras robustas

E ter um orgasmo de verbo
com seu dicionário, de vocábulos
encher-me de textos

Aprender novas palavras
converte-las retorná-las

Ser um sinônimo predicado
E um antônimo de sujeito

E frases e enunciados
caracteres em rebelião
e seguir escrevendo
um ditado de gramática

Hoje quero converter-me em signo
e ser um poema, um verso grafia

Uma prosa um manifesto…
Beatriz Bejarano trad. Eric Ponty